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Design para o mundo Real – Livro de Victor Papanek apresenta o design como uma poderosa ferramenta mudar o mundo

06 jul 2011 - Por em Arte e Design

Há alguns anos tive a sorte de encontrar um livro que deveria ser leitura obrigatória não apenas a designers mas a qualquer um que tenha o mínimo de consciência social e ambiental. Trata-se do Design for the Real World, de Victor Papanek.

Li a edição de 1982, porém a primeira surgiu em 1971, muitas décadas antes da “sustentabilidade” virar palavra de moda – o que, consequentemente, acabou por esvaziar esse conceito. Muitos dos problemas descritos então podemos encontrar ainda hoje, mas não por falta de soluções, mas sim por falta de vontade dos detentores do poder.

Escrevo esse artigo de memória, lembrando de passagens ou ideias marcantes e em como transmití-las da melhor forma possível a você, unindo-as a exemplos ainda encontrados hoje. Não chegarei sequer a arranhar a superfície do livro, dada sua densidade, mas espero despertar a vontade de conhecê-lo mais a fundo.

Papanek (1927 – 1998) defendia o design social e ecologicamente correto, e abominava qualquer produto mal fabricado, perigoso, ou simplesmente inútil. Lendo isso você talvez até diga, “mas não seria óbvio alguém pensar assim?”. Infelizmente, não.

Um dos exemplos da falta de vontade dos poderosos, foi uma proposta (rejeitada na época) para que fosse adicionada uma terceira luz de freio nos automóveis, aumentando a visibilidade sobre as ações dos motoristas especialmente quando estes estavam à frente de um caminhão. A desculpa das montadoras? “Vai encarecer o processo em milhares de dólares!” Mais importava para eles o lucro do que a vida dos usuários de seus produtos – e esse pensamento ainda não morreu. Papanek então testou o projeto em seu próprio carro e descobriu que para uma pessoa comum, fazer a mudança não custaria mais do que 100 dólares. Oras, para uma montadora, que trabalha em larga escala, esse custo cairia drasticamente, indicando a falta de fundamento da desculpa dada.

Hoje temos esse item de segurança, mas ainda estamos longe de realmente nos sentirmos seguros nas estradas. Inclusive em se tratando de visibilidade, uma nova moda perigosa foi lançada no Brasil: os piscas traseiros, antes amarelos, estão sendo convertidos para vermelhos, como se não fosse importante perceber com clareza a ação do motorista da frente. Notei a diferença inicialmente no Ford Fusion e Nissan Sentra (tem alguma diferença?), mas o mal já está se espalhando para modelos menos e mais populares.E em se tratando de segurança, airbag é item de luxo, que ainda vai levar anos para vir de série em todos os automóveis. Ter uma chance maior de sobrevivência é luxo! Onde já se viu isso?!

Bom, vamos voltar ao livro.

Papanek se preocupava não apenas com as pessoas comuns, “vítimas” diretas das indústrias, mas também se preocupava com aqueles grupos humanos que acabam sendo esquecidos por muitos, das vítimas indiretas da exploração industrial, que perdem suas florestas, sua água, sua vida. Esse é o mundo real, com pessoas com necessidades reais de segurança e sobrevivência, diferente do mundo que muitos designers buscam, das fortunas prometidas pela elite, onde apenas uma mísera parcela da população tem direitos.*

Trabalhando com a Unesco, Papanek teve contato com muitos grupos diferentes, conhecendo melhor seus costumes e suas necessidades. De nada vale um designer sentado confortavelmente com sua prancheta (ou o computador hoje) se ele não conhece a fundo o público que precisa de sua ajuda, se ele não entende as reais dificuldades enfrentadas particulares de uma região, de um clima, de um país. É muito fácil para alguém aqui brincar de projetar um sistema de purificação de água sem realmente sentir a necessidade de encontrar água pura diariamente, sem o risco de contaminação e morte. Difícil é fazê-lo funcionar para quem precisa.

Mas as ideias não precisam ser complexas para serem executadas: muitas vezes a simplicidade é a chave para viabilizar um projeto que possa salvar vidas. Um outro exemplo legal do livro trata de formas de reflorestar áreas de difícil acesso: Observando sementes protegidas por cápsulas em forma de hélice, mais “gordinhas” de um lado, Papanek pensou num sistema semelhante para ser lançado por aviões, aproveitando também os ventos para alcançar uma área maior.

Além da exploração de projetos, Papanek deixa bem clara a importância do trabalho voluntário e sugere que todos dediquem10% de seu tempo para esse fim. Oras, 10% é muito menos do que gastamos com bobagens online, olhando vitrines a esmo, ficamos largados em frente à TV, então… por que não?

A minha sugestão agora é que você dedique inicialmente 10% do seu tempo com a leitura diária desse livro. Os exemplos são inúmeros e as informações são valiosíssimas tanto para profissionais como para consumidores.

Só podemos exigir a mudança se entendermos o que nos é oferecido e o que pode de fato ser feito.

* Recentemente escrevi um artigo sobre nossa influência em outros grupos humanos após conhecer o documentário Planeta Humano. http://chocoladesign.com/planeta-humano
** Desconheço a existência de uma versão traduzida do livro, portanto prepare seu inglês .

Links Externos: Victor Papanek / Design for the Real World / Unesco

Sobre o Autor: Jaci Coningham ( @coningham | G+ )

Sou Designer e diretora de arte. Acredito no uso do design voltado à informação e ao desenvolvimento humano.

Site: http://jaci.coningham.net - Veja todos os artigos de

Faça seu Comentário

  • Srta. Lígia Jimenez

    Certamente, um livro necessário. Deve ser interessantíssimo do começo ao fim, uma pena não saber inglês :-( 

  • Flávio Yamamoto

    Estou em busca deste livro e não encontro em lugar nenhum!!

  • Eduardo Campos

    Oi, só queria dizer que a questão dos piscas tanto do Fusion quanto do Sentra serem vermelhos é porque no seu país de origem, México, a legislação permite, assim como nos EUA, portanto os DETRANs(não sei se é o órgão correto para o assunto) daqui também permitem. Nós é que acabamos por ter que engolir essa imposição com um apelo estético duvidoso, e que ainda por cima diminui a segurança inquestionavelmente.