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Arthur Cursino

Relato dos quatro dias em que morei e vivi na rua – Parte 2

17 set 2012 - Por em Vida Verde

“Eu não durmo, não durmo nunca!”

Foi o que o menino-adulto de 16 anos me disse quando perguntou se o que a gente fazia na rua era meditação. Respondi que sim e ele disse que também fazia meditação do jeito dele e que, por isso, ele nunca dormia.

Faculdade_de_Direito_da_USP

Estendemo-nos na conversa, seu nome era Rafael e ele tinha fugido de casa aos 9 anos, porque apanhava muito do pai. Contou que era esperto e que ao invés de viver de furtar os estudantes da Faculdade São Francisco, como outros garotos da idade dele faziam, trabalhava passando drogas na Cracolândia. Disse ainda que tinha um caderno de poemas e músicas e cantou um trecho de um rap seu sobre sua mãe, não me lembro da letra, mas lembro que os olhos encheram de lágrimas.

Rafael nos encontrou no final do segundo dia do retiro. Antes disso, no entanto, fiquei de contar como foi nossa primeira noite de sono.

A primeira noite na rua a gente nunca esquece

Apesar de ser novembro e fazer calor durante o dia, a brisa da madrugada incomodou bastante e, apesar de estar com uma blusa de gorro, passei muito frio. Não muito longe de nós, ouvimos gritos durante toda a noite de um grupo de adolescentes que se drogava. Não bastasse isso ainda fomos visitamos por duas ratazanas que resolveram brigar próximo do nosso grupo e quase caíram em cima de um colega.

morador de rua

Na manhã seguinte comentei com o pessoal que não consegui dormir de verdade, foram uma sequência de cochilos e a impressão que tive é que fiquei a madrugada inteira virando no papelão de um lado para o outro. Meus amigos disseram que sentiram o mesmo; acho que ninguém dorme de verdade na rua.

Todos os dias às 6 horas da manhã a cidade acorda

Os trabalhadores começam a chegar, o movimento dos ônibus e carros aumenta, os comércios abrem e os moradores de rua acordam. Ao nosso lado um morador escovou os dentes na calçada, penteou o cabelo, colocou suas coisas na mochila e partiu para mais um dia. Tentei rememorar quantas vezes cruzei na rua com pessoas como ele e nunca imaginei que muitos podem ter passado a noite no sereno.

Ainda cambaleando de sono fomos atrás do café da manhã. Descobrimos rapidamente que o café da manhã é uma refeição de luxo na rua. Não existe distribuição de comida ou sopa, como no almoço ou no jantar. Em nossa caminhada um morador nos disse que o McDonald’s do centro oferece café de graça aos moradores. Achamos bastante estranho, mas mesmo incrédulos fomos até o Mc para ter a agradável surpresa de que o morador dizia a verdade. Quem diria que iria tomar um cappuccino logo cedo? Coisas da rua.

pátio do colégioDepois do café fomos à estação de metro da Sé para usar o banheiro e depois nos reunimos no Pátio do Colégio para meditar e discutir sobre como seria o dia. Ficamos sabendo de uma instituição que oferece almoço no Belenzinho, o local devia estar a uns 7 km da onde estávamos então foi um dia de bastante caminhada.

Lembro-me de uma cena que marcou muito no caminho de ida. Eu tinha uma garrafa de água descartável que peguei no lixo, e no dia anterior tinha pedido para um rapaz que lavava a calçada com uma mangueira encher. Dessa vez não encontrei ninguém com uma mangueira, então entrei em um bar e pedi para o balconista encher na torneira.

O monge que coordenava o retiro comentou que quando pedíamos algo, tínhamos de ter algo onde receber as doações, como um chapéu ou boné, porque as pessoas não gostam de encostar em moradores de rua. Eu estendi a garrafa ao rapaz do balcão, ele não olhou para mim, não falou comigo, apenas pegou a garrafa encheu e quando foi me devolver, estendi a mão para pegar no ar, mas pouco antes de alcançar a garrafa ele desviou e a colocou no balcão. Foi bem nítido: ele não quis correr o risco de encostar em mim; naquele momento senti profundamente que com pouco mais de 24 horas na rua a sociedade já tinha me excluído.

Chegamos ao local do almoço, era um galpão grande embaixo de um viaduto, nos espalhamos para poder ter mais contato com os moradores. Sentei em uma mesa ao fundo e estava tão cansado que enquanto aguardava a distribuição da comida me deitei sobre a mesa para descansar um pouco. Nessa hora senti que estava com o mesmo cheiro dos moradores de rua, um cheiro de sujeira misturado com suor, que nada mais é do que nosso próprio cheiro, sem perfumes e fragrâncias para esconder.

O almoço estava uma delícia, arroz, feijão, salada e peixe. Comemos, conversamos, sorrimos. Alguns se deitaram para dormir, enquanto eu e mais alguns colegas pegamos vassouras e panos para ajudar a limpar o local. A faxina comunitária é uma prática importante no Budismo e me senti praticando profundamente enquanto empurrava as sobras de cima das mesas para dentro do lixo.

Essa instituição também oferecia chuveiros para banho. Aproveitei para me lavar, sem sabonete, shampoo, condicionador, toalha, chinelo ou muda de roupa. Apenas meu corpo e a água fria; que delícia.

Novamente na Praça da Sé

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Partimos. Na volta em pleno Brás alguém comentou que podíamos tentar esmolar alguns farrapos nas lojas de tecidos para nos cobrirmos a noite. Passei em frente a uma loja, vi um rapaz novo que me olhou e rapidamente entrou me ignorando. Abordei uma atendente e perguntei se ela tinha algumas sobras de pano para doar, ela disse para conversar com o gerente e apontou para o rapaz que me ignorou na porta. Fui até ele sem esperanças, expliquei nosso retiro e pedi alguns farrapos. Ele me pediu para esperar um pouco e em seguida voltou com 12 lençóis novos para usarmos. Nunca imaginei que ele me daria algo, que dura lição sobre o pré-julgamento. Coisas da rua!

Chegamos finalmente na Praça da Sé e encontramos um espaço chamado de Tenda, onde os moradores de rua podem usufruir de banheiro, chuveiro e uma televisão. Passamos agradáveis momentos na Tenda e partimos para buscar o jantar. Dessa vez esperamos no Largo São Francisco, onde mais uma vez uma longa linha de moradores se formava esperando pela distribuição. Foi ali que o Rafael nos encontrou.

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Jantamos e nos recolhemos para dormir no Pátio do Colégio; Rafael nos acompanhou o tempo todo e permaneceu ao nosso lado durante a noite, guardando nosso sono. Ele realmente não dormiu. Poderia dizer que ele fez isso apenas para provar que não estava mentindo, mas estaria pré-julgando novamente. O que importa mesmo é que aquele menino de 16 anos, que eu provavelmente mudaria de calçada se visse caminhando na minha direção em outro momento, mostrava ter uma riqueza que poucos encontram: um coração puro.

Rafael só queria conversar com alguém que o entendesse. E quem não quer?

Imagens: Bike Pedal e Cia

Sobre o Autor: Arthur Cursino ( @arthurcursino | G+ )

Arthur Cursino

Sou gestor ambiental, pesquisador, doutorando em energia, budista, mas não me identifico com nenhum desses rótulos. Me considero antes de tudo um ser humano, com qualidades e defeitos, e acima de tudo: em processo constante de aprendizado.

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  • Maria

    Imaginei quão rico foram os ensinamentos nestes 4 dias, colocados em prova toda teoria pre-consebida… Parabéns pela coragem da iniciativa e ainda mais em retornar ao seu dia-a-dia e a “volta de ser visto de novo” na sociedade. Quem me dera ter tido a sua oportunidade!!!

  • Jorge Koho

    Grato pela sensibilidade do texto, Arthur, e pela presença tão humana naqueles dias que partilhamos nas ruas de Sampa. Gassho, mãos em reverência. Jorge Koho

  • Fenomenal! Parabéns Arthur =))

  • Waldemar

    Arthur
    A maior e melhor coisa que você aprendeu com essa experiência tem o nome de “SABEDORIA”.
    Com os anos ela vai aumentar.
    A Sabedoria engloba outra grande qualidade a “TOLERÂNCIA”.
    Beijos do pai orgulhoso da sua sabedoria.

  • Muito bom. Parabéns pelo relato e pela experiência!