Cheguei. Estou aqui em plena Praça da Sé no centro de São Paulo com a missão de passar os próximos quatro dias e três noites morando e vivendo na rua.
Não estou sozinho, somos nove pessoas no total, participando do primeiro retiro de rua da América Latina. Essa atividade chamada de retiro de rua é praticada há mais de 20 anos pela comunidade Zen Budista de Nova Iorque e agora, pela primeira vez, estava sendo realizada no Brasil.
Ao nosso dispor a roupa do corpo, um documento com foto e a disposição de pedir tudo que for necessário para as pessoas na rua.
Onde vou dormir? O que vou comer? Não sei. Cada coisa será descoberta em seu tempo e sua necessidade.
O retiro foi realizado no segundo semestre do ano passado. Em quatro dias aconteceram muitas coisas, que não poderão ser contadas em apenas um relato. Vou contando a história aos poucos, abrindo espaço para perguntas que forem surgindo nos comentários.
O melhor e o pior de morar na rua
O pior: o sentimento de desaparecer; de uma hora para a outra estar completamente à margem da sociedade, simplesmente por não mais atender aos padrões estabelecidos.
O melhor: ouvir e compartilhar das histórias e do carinho de muitos moradores de rua; perceber que eles são seres humanos como eu, com suas fraquezas e coragens.
Sem dúvida uma das experiências mais intensas da minha vida, mas vamos com calma, onde estava mesmo? Ah sim, Praça da Sé!
Seu Bezerra e as preocupações da vida
Sentados na escadaria da igreja, esperando por outros participantes do retiro que ainda não tinham chegado, somos recepcionados por um morador de rua, Seu Bezerra. Magrelo, sem dois dentes e com aparência bem acabada, não só pela rua, mas pelo álcool, que segundo ele, foi o que o levou para essa situação.
Seu Bezerra nos apresentou seu filho da rua (um rapaz de uns 20 anos que morava no centro também e foi adotado por ele). Em algum momento da conversa, não me recordo bem porque, alguém comentou sobre as preocupações da vida e um rapaz do nosso grupo fez graça dizendo que estava literalmente ficando careca de tanta preocupação. Seu Bezerra levantou a camisa, mostrou três cicatrizes: duas de bala e uma de faca e disse:
- Você tá preocupado com cabelo?
Foi nesse momento que eu senti na pele: isso aqui é de verdade
Em busca de alimento
Depois dessa recepção fomos caminhar pelo centro, precisávamos encontrar um lugar para meditar e conversar sobre os primeiros passos. Meditamos na Praça do Patriarca, enquanto várias pessoas tiravam fotos com suas câmeras e celulares quando passavam por nós. Depois discutimos onde poderíamos comer; um membro do grupo disse que um morador comentou sobre um sopão distribuído no bairro da Liberdade, ali próximo. Sem outra opção levantamos e fomos em busca do sopão.
Em cima do viaduto deviam ter umas 100 a 150 pessoas, todas esperando pela Kombi do sopão. Pegamos nosso lugar na fila e enquanto esperávamos ansiosamente pela comida, ouvimos um morador comentar alto: “tomara que hoje eles venham, ontem não vieram”. E se não vierem? Vamos reclamar com quem? Pensei eu. Vamos passar fome, cheguei à conclusão.
Por sorte o sopão chegou e estava uma delícia. Com a barriga cheia partimos para a próxima missão que era encontrar um local relativamente seguro para dormir. Depois de uma maratona pelo centro, finalmente chegamos ao Largo São Francisco, onde muitos moradores se ajeitavam para dormir.
Estendi no chão o papelão cuidadosamente coletado no lixo algumas horas antes e me deitei. Olhei para o lado e cruzei olhar com um amigo, que comentou: “chegou a hora”, dei risada, era exatamente isso que eu estava pensando. Dormir na rua deve ser muito difícil.
No próximo artigo contarei como foi o segundo dia.
Fotos: SPressoSP | Implicante



















