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Renato Ribeiro

Sustentabilidade empresarial como exemplo

DSC06282Há quem diga que sustentabilidade e capitalismo não podem andar juntos. Há quem diga que empresas familiares são fadadas ao fracasso.

Antes de qualquer coisa é preciso deixar claro que sustentabilidade empresarial nada tem haver com sustentabilidade ambiental, por outro lado, para uma empresa permanecer ativa durante anos no mercado é preciso que o planeta continue existindo e haja recursos para prosseguir sua produção, portanto a sustentabilidade ambiental é um dos suportes da sustentabilidade empresarial.

O Coletivo Verde tem como objetivo apontar alternativas e exemplos de sustentabilidade em todas as áreas, inclusive na interação entre a sustentabilidade empresarial e ambiental.

Estive diante de um “case” interessante, Faber-Castel, todos conhecem, não há quem não tenha utilizado milhares de vezes algum lápis, borracha, caneta ou qualquer outro produto deles, no mundo.

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Em qualquer caixinha de seus lápis vocês podem identificar selos de qualidade, aprovações de Inmetro, Abrinque, um selo do FSC e a nomenclatura “Eco Lápis”. Para se conquistar estes itens não basta “greenwashing”, propaganda enganosa pintada de verde-ecologia.

Órgãos que atestam a qualidade de empresas fazem auditorias para que elas os conquistem, leis federais e estaduais obrigam empresas a terem certos cuidados com o meio ambiente. A Lei de resíduos sólidos, entre outras atribuições, obriga as grandes fábricas em solo nacional cuidarem de seus descartes de forma responsável, mas é uma obrigação relativamente nova, entrou em vigor no ano passado, apesar de parecer tão óbvio.

DSC06313Mas a Faber-Castel se adiantou; na fábrica de lápis, em São Carlos – SP, há um sistema de tratamento de resíduos e cuidado com água desde 1977. Para se ter, uma ideia, depois da água de toda a empresa, banheiros, cozinha e processo industrial, passar por um rigoroso tratamento físico e químico, ela alimenta um aquário com peixes vivos, eles atestam a qualidade da água que está sendo devolvida ao meio ambiente. Vale lembrar que o tratamento de esgoto no Brasil não chega a 40%. Imaginem se todas as empresas, prefeituras e governo de estado fizessem sua parte.

Na fábrica nos perguntamos como vivem as pessoas que trabalham lá, em processos mecânicos, operando máquinas dia após dia. Indagamos uma operária se ela gostava de trabalhar ali.

DSC06239Com um sorriso sincero ela respondeu que adorava. Outra nos disse que o sonho dela era trabalhar lá como o pai e a mãe dela já o faziam há anos.  Não acredito que isto seja uma regra absoluta, eu mesmo não tenho perfil para trabalhar desta forma por tantos anos na mesma empresa, mas não podemos negar a satisfação destes. Descobrimos por exemplo que na fábrica de São Carlos trabalham algo em torno de 2.500 pessoas fixas, mais algo uns 500 temporários, alguns membros das mesmas famílias que se sucedem na empresa, um modelo que lembra o da família Faber.

DSC06243    Além de atender a legislação trabalhista brasileira tem algumas peculiaridades, os funcionários da linha de produção param quatro vezes por dia para exercícios físicos de alongamento a fim de limitar a ocorrência de doenças ocupacionais, bom para a empresa que não perde funcionários doentes com tanta frequência, para o próprio funcionário que tem sua saúde cuidada e para o governo que poupa recursos do INSS por afastamento. Para mim, um forte indicador de sustentabilidade. Com um refeitório próprio e uma dieta balanceada, não vi funcionários obesos por lá, uma surpresa em dias atuais.

Vale lembrar que Faber-Castel foi uma das primeiras empresas no mundo a instituírem um fundo previdenciário para seus funcionários, ainda no século XIX, muito antes das primeiras normas trabalhistas.

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O processo industrial é de uma beleza própria, uma profusão de cores e odores, da madeira cortada a vernizes que utilizam água como solvente, ceras e pigmentos atóxicos. Antes de mais nada, as as leis brasileiras obrigam estas qualidades aos produtos indicados para nossas crianças.

Tudo depende do meio ambiente e é neste momento que a empresa precisa trabalhar em sintonia.

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O plantio, a matéria prima do lápis depende de um manejo adequado que tenha condições de se repor e perpetuar com a madeira em si, no caso o Pinus Acabea e a terra. Dentro de uma área de 9,6 mil hectares em Prata, município de Minas Gerais, próximo a Uberlândia, ela mantém árvores em várias fases de crescimento que um dia se tornarão lápis, as que não servirem para este fim vão para madeira de compensado, industria de móveis, outras partes geração de energia e ainda serragem para granjas e adubo para alimentar a própria terra, aproveitamento de 100% do produto. O cuidado com o manejo é certificado pelo selo SFC, não comprem nada de madeira ou produto de madeira sem este selo!

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Um princípio de sustentabilidade empresarial e ambiental é “Na natureza nada cria”[i] ou se desperdiça “tudo se transforma” e se aproveita matéria e energia.

Eles mantêm uma reserva nativa dentro de sua propriedade, prevista em lei como APP no nosso ameaçado código florestal, área de preservação permanente, no caso 20% do terreno para região sudeste, com mata nativa e animais protegidos. Cuidam do em torno, com a sinalização sobre o cuidado com os animais na estrada, postos de observação contra incêndio e ainda um copo de bombeiros próprio que atende a pequena cidade próxima em caso de necessidade.

Enfim, um exemplo de sustentabilidade sem dúvida, respeito às leis trabalhistas e ambientais, ao meio ambiente, às pessoas que lá trabalham, àqueles que utilizam seus produtos, provando que é possível ser sustentável, gerar lucro, adaptar-se às adversidades do mercado e se perpetuar na história como uma empresa dos primórdios da revolução industrial que não se abriu a muitas das armadilhas do capital, continua sendo gerida pela mesma família fundadora há nada mais que oito gerações, 251 anos, dos quais, apenas 82 no Brasil que se tornou um de seus mais importantes parques industriais.

 


[i] Lavousier

Sobre o Autor: Renato Ribeiro ( @renatocenografo | G+ )

Renato Ribeiro

Formado em Comunicação Social pela FAAP, sempre mergulhado no trabalho cenográfico,Renato Ribeiro realiza direção de arte para cinema e vídeo, organiza equipes e coordena trabalhos de cenografia em todos os campos, dos estúdios de produção aos mais diversos ambientes temáticos, além de desenvolver peças exclusivas, principalmente com material reciclado e ambientalmente correto. Especialista em Ecologia, Arte e Sustentabilidade pela UNESP e UMAPAZ, Renato acredita que resguardar as condições de vida no planeta é responsabilidade de todos os seres humanos, em especial artistas, comunicadores, empresários, homens públicos e todos aqueles que têm condições de influenciar pessoas e de modificar e interferir no meio ambiente de forma positiva.

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