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Mariana Nassu

Terapia Larval – Uso de larvas de mosca para cicatrização de feridas

19 jan 2014 - Por em Vida Verde

Atenção este artigo contém fotos de lesões e feridas que podem impactar pessoas sensíveis.


(Esq.) Chrysomya putoria e (dir.) Chrysomya megacephala (Diptera: Calliphoridae). Imagens: Grella, M.D. 2010.

(Esq.) Chrysomya putoria e (dir.) Chrysomya megacephala (Diptera: Calliphoridae).
Imagens: Grella, M.D. 2010.



A terapia larval (TL) consiste na aplicação intencional de larvas de moscas (Diptera) criadas em laboratório sobre lesões, feridas crônicas e/ou infectadas, tendo como finalidade a cicatrização tecidual.

As larvas usadas devem estar vivas, desinfectadas e ser necrobiontófagas, ou seja, se alimentar de tecido morto de um animal vivo. O procedimento tem sido uma maneira alternativa, e por vezes mais eficaz, para a limpeza de feridas, uma vez que as larvas removem a secreção e promovem a limpeza do tecido necrosado.

Larvas da espécie Lucilia sericata

Larvas da espécie Lucilia sericata
Imagens: ITurkmen, A.; Graham K.; McGrouther D.A. 2010. Therapeutic applications of the larvae for wound debridement. – Journal of Plastic, Reconstructive & Aesthetic Surgery (63), 184-188.

As larvas ingerem crostas, pus e bactérias as quais, ao passar pelo tubo digestório do inseto, morrem. Adicionalmente, nesse processo que envolve a locomoção sobre as lesões, liberam amônia e proteínas cicatrizantes que matam bactérias e estimulam a cicatrização, respectivamente.

Nos Estados Unidos a TL foi amplamente empregada até a década de 1930, caindo em desuso logo após o aparecimento dos antibióticos. Alto custo e o desenvolvimento de resistência a esses medicamentos assinalada para certos grupos de bactérias patogênicas para o homem favoreceram o ressurgimento da TL, atualmente muito utilizada em cerca de 20 países, tais como Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e Israel.

Resultados da Terapia Larval


Paciente com ulceração na Holanda [onde (D) aspecto da lesão gangrenosa na perna, (E) larvas de Lucilia sericata sobre a ferida e (F) membro um anós após o tratamento.

Paciente com ulceração na Holanda [onde (D) aspecto da lesão gangrenosa na perna, (E) larvas de Lucilia sericata sobre a ferida e (F) membro um anós após o tratamento.
Imagens: Jukema et al. 2002

Os resultados têm sido satisfatórios e faz-se necessário registrar o índice de cura da ferida, em torno de 80 a 90%, independente da etiologia da lesão. Em diabéticos tem chamado à atenção a rápida cicatrização que leva à queda do número de amputações e até mortes.

Em nosso país o preconceito e o desconhecimento da população e do pessoal envolvido com a área da saúde vêm impedindo a implantação dessa técnica de excelência.

A terapia Larval No Brasil

Mesmo com um número reduzido de publicações – por exemplo, apenas um livro de revisão sobre o assunto intitulado “Terapia larval de lesões de pele causadas por diabetes e outras doenças” – e de pesquisas em andamento – conduzidas por especialistas em moscas no Estado de São Paulo – o uso da TL poderia ser realidade no Brasil desde o presente momento.

Estudos apontam pelo menos duas espécies para uso em TL de fácil obtenção em território nacional e testes já comprovaram a eficácia das mesmasChrysomya putoria e Chrysomya megacephala (Diptera: Calliphoridae) – na cura de feridas induzidas em ratos.

O próximo passo, para garantir o bem estar daqueles que necessitam, é o teste em humanos para permitir a regularização da TL junto aos órgãos responsáveis pela saúde em nosso país.

Imagens: ITurkmen, A.; Graham K.; McGrouther D.A. 2010. Therapeutic applications of the larvae for wound debridement. – Journal of Plastic, Reconstructive & Aesthetic Surgery (63), 184-188.

Imagens: ITurkmen, A.; Graham K.; McGrouther D.A. 2010. Therapeutic applications of the larvae for wound debridement. – Journal of Plastic, Reconstructive & Aesthetic Surgery (63), 184-188.

Referências

  • JUKEMA, G.N.; MENON, A. G.; BERNARDS A. T.; STEENVOORDE, P.; TAHERI RASTEGAR A. & VAN DISSEL J.T. 2002. Amputation-Sparing Treatment by Nature: “Surgical” Maggots Revisited . Clinical Infectious Disease, 35: 1566–71.
  • MACDOUGALL, K.M. & RODGERS, F.R. 2004. A case study using larval therapy in the community setting. British Journal Nursing, 13 (5): 255-260.
  • MARCONDES, C.B. 2006. Terapia Larval: de lesões de pele causadas por diabetes e outras doenças. Santa Catarina: Editora da UFSC. 89p.
  • NITSCHE, M.J.T. 2010. Avaliação da recuperação de lesões cutâneas por meio de terapia larval utilizando como modelos ratos Wistar. UNESP: Tese de Doutorado. 53p.
  • SHERMAN, R.A.; HALL, M.J.R. & THOMAS, S. 2000. Medical Maggots: an Ancient Remedy for some Contemporary Afflictions. Annual Reviews Entomology, 45: 55-81.

Sobre o Autor: Mariana Nassu ( | G+ )

Mariana Nassu

Bióloga, simpatizante da permacultura e atualmente trabalhadora nômade por fazendas orgânicas brasileiras

Site: https://medium.com/@marianaprado - Veja todos os artigos de

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  • Tatiana

    ..bom dia, estamos iniciando um projeto em terapia larval aqui em Apucarana, Paraná, dia 28/03 o professor Carlos Brisola Marcondes fará uma palestra…mas como você mencionou a questão cultural, o preconceito são questões sérias devem ser bem orientadas!!! abraços

  • Mari

    Olá Tatiana, esse tratamento está sendo testado em Apucarana? Se sim por favor, deixe recado ou algum contato que eu possa me informar. Obrigado

  • Mariana Nassu

    Olá Tatiana!
    O projeto que vocês estão iniciando está ocorrendo onde?Universidade ou hospital?
    Gostaria muito de conversar melhor com você sobre o assunto!

  • Tatiana

    Olá, boa noite!!Nosso projeto possui uma parceria com o Laboratório de Entomologia da UEM e a Autarquia de Saúde de Apucarana, meu orientador é da UEM, mas como tudo que se diz respeito a pesquisa infelizmente é muito lento, estou desenvolvendo sem recurso algum.Tudo está caminhando devagar, porém sem recursos por enquanto…a maior facilidade por enquanto, é que trabalho na área de saúde há 20 anos, então tenho bastante conhecimento com o pessoal..atenciosamenteBióloga Tatiana
    Subject: Re: New comment posted on Terapia Larval – Uso de larvas de mosca para cicatrização de feridas

  • Tatiana

    Olá, estamos nos organizando para montagem de um mini laboratório para iniciarmos a criação. Por enquanto está tudo muito lento, mas nosso interesse é iniciar logo que possível os curativos em animais no primeiro momento, meu contato tatibalu@hotmail.com.
    Obrigada

  • Tobias

    Esse método pode ser utilizado em qualquer tipo de ferida? Feridas pequenas também são válidas?

    Imagino que não seja… interessante, para o paciente, o contato das larvas com a pele, algo é feito para amenizar isso?

  • Mariana

    Olá Tobias! A terapia larval pode ser utilizada em qualquer tipo de ferida purulenta de pele, ou seja, que apresente tecido necrosado. O tamanho da ferida só interfere na quantidade de larvas que serão colocadas, portanto feridas pequenas tb podem ser tratadas com TL.
    Os relatos sobre a sensação dos pacientes é de possibilidade de cócegas, mas raramente de dor. Se isso acontece, analgésicos podem ser dados ao paciente. Quanto ao desconforto em ver as larvas se alimentando, durante o tratamento os imaturos ficam cobertos com curativo, evitando que fujam e que a pessoa sinta repulsa nessa visualização.

  • Kethlen

    Boa dia, Mariana

    Onde consigo esse tratamento com urgência, moro em Curitiba/PR, minha mãe tem diabetes e pés com úlceras diabéticas a mais de 20 anos, e nos últimos 15 dias, houve uma piora enorme, chegando um dos dedos a começar a gangrenar, o médico já falou em amputar mais minha mãe é contra, estou desesperada me ajude, por favor entre em contato comigo no meu e-mail kethlenvalle@hotmail.com

  • Tobias

    Obrigado pela resposta!

    Nesse contexto, o que são os imaturos?

  • Mariana

    Os imaturos são as larvas.

  • Sidirley Maia

    Vc tem whatspp tatiana? Queria seu contato para mais informacoes sobre o projeto. Agradeco.

  • paulo henrique

    por favor me ajude ou tire alguma duvida imploro minha mae tem uma escaria sacral ja tem 5cm de profundidade ja famos vamos hospital daqui de belo horizonte mas nenhum doutor e medico sabe naos ajudar por favor entre em contto comigo por watsap para que eu possa te mandar as fotos e para que vcpossa me ajudar com alguma duvida ou sujestao

  • Fabex

    Qual a diferença dessa e daquela outra que como animais vivos?

  • paula tissot

    São moscas de espécies diferentes,as que comem tecido vivo são causadoras de miíase,e podem causar graves lesões.

  • Mary

    Oi Tatiana, por favor como faço pra entrar em contato contigo?

  • Tatiana

    Olá Boa noite, meu whats 43 9809902.. ou pelo e-mail…
    Obrigada

    Subject: Re: Comment on Terapia Larval – Uso de larvas de mosca para cicatrização de feridas